quinta-feira, maio 14, 2015

A vida num contentor

É fácil. Neste caso começa com um anúncio na internet: “Procura-se gestor de empresas para empresa internacional”. O candidato envia currículo, é selecionado de imediato, comemora com os amigos, não faz perguntas – até porque tem um percurso imaculado, só não encontra trabalho entre nós –, não participa em nenhuma entrevista, não considera isso estranho. Só sabe que vai ganhar um salário de sonho e, por isso, aluga a casa no país de origem, despede-se da família e parte, uma semana depois, com um bilhete que “será depois recompensado à chegada”.

Só que, “à chegada”, ele é raptado. Sim, raptado! A estrada para o inferno começou quando deixou de fazer perguntas, ou cegou com a luz de uma pequena esperança. Não é juízo de valor, é a função do narrador omnisciente a contar o final da história.
É, depois, obrigado a entrar num camião, com outros rostos tão perdidos e desesperados quanto o dele. Percebe que a estrada é sinuosa, galga-se quilómetros de buracos e lombas, a grande velocidade. Entranha-se, nas narinas secas, um cheiro a savana e suor em ebulição. Homens enclausurados.

Pensa no fim, porque cogitar no pior seria ter uma réstia de esperança, e a ilusão já não entra num coração aflito depois da primeira cegueira fatal. Horas depois, sob um calor tórrido, o motor para. Abre-se a porta, é noite cerrada, gélida, sepulcral. Ele pergunta o que está a acontecer e leva uma coronhada de metralhadora. O sangue que escorre desde a ferida exposta na cabeça até à boca sacia-lhe a sede, embora já nada disso importe. É enclausurado, novamente, num contentor com os mesmos rostos cansados, carcomidos pelas horas de agonia.

Tenta falar, mas sente que a voz falha. Será o medo a velar por ele? Ter medo pode ser uma réstia de esperança. Uma janela que se abre por dentro e sussurra: estou vivo! A camisa nova e nívea que comprou numa loja de marca, no país de origem, está maculada com espirros vermelhos.

Durante algum tempo é ele e aqueles outros homens, no meio do mato, sozinhos, encarcerados, desolados, imiscuídos de existência. Não sabe durante quanto tempo, mas dormiu muito, morto de cansaço, vencido pelo ar rarefeito, mas sobretudo no fio existencial de que essa réstia de esperança fosse um acordar de novo, percebendo que, afinal, tudo não passava de um sonho muito ruim.

Quando, enfim, abriram a porta, percebeu que, se fossem mais uns dias, talvez não voltasse a acordar. Pensou que seria o melhor. Chamam-no. Obrigam-no a ligar à família em Portugal. Pedem um resgate: 500 mil euros. Crime organizado. Extorsão. Rapto. Tráfico. Sabe-se lá mais o quê. Deixaram-no aos pontapés, com risos alarves. Esqueceram-se da porta aberta.

Durante a noite arriscou a vida. Com o coração a ensurdecer o pensamento correu até onde pôde. Aprendeu a rezar. Viu uma luz. Arriscou uma povoação. Acudiram-no. Voltou para casa com ajuda de um homem que não sabe o nome. Está entre nós, são e salvo, pelas ruas deste país. O tráfico de pessoas existe e pode estar à distância de um clique. Mais difícil e desconcertante: esta história foi-me testemunhada num balcão de atendimento; poderia ter sido qualquer um de nós, com a vontade de uma réstia de esperança.

*Crónica publicada a 14/o5/2015 no Porto24

sábado, abril 04, 2015

António Trovão, ou como fazer uma faísca

Este homem magro e de chapéu verde-musgo a condizer com a camisa, simpatia ancestral, viu-nos passar e chamou como quem ordena lei: – “Oh, não querem tomar um vinho?”. 
ilha de Santa Maria, Açores, Março 2015|@Vanessa Rodrigues

Conheci o Trovão, logo ao descer a reta do Desterro, depois de ter passado Brasil, pela manhã, Almagreira e Santa Bárbara, embora ele more na Graça. É a sua adega com vinho de cheiro e jaquês que o prende à baía de São Lourenço, nestes dias com mar calmo e vigília de lua cheia. Dizem que sustenta Impérios, todos os anos, esse pagamento de promessas religiosas à conta do Espírito Santo, alimentando as bocas da ilha de Santa Maria, nos Açores, que se reveza nas copas comunitárias. Há de ler-se n’”O Baluarte”, logo em janeiro, para ver se o nome dele não consta na lista anual de homens de sopas do Espírito Santo. Sopas com cozedura especial, pão e muita carne de vaca e uns segredos que apenas três a quatro famílias conhecem em toda esta ilha, espraiada nos seus 98 quilómetros quadrados.
Este homem magro e de chapéu verde-musgo a condizer com a camisa, simpatia ancestral, viu-nos passar e chamou como quem ordena lei: – “Oh, não querem tomar um vinho?“. Mal percebemos e já estamos na loja com olor a bagaço e mosto, entre barricas envelhecidas e conversas de água salgada, usada para preservar este vinho de cor cobre-salmão. Mal nos tenta sair resposta pensada na ousadia do não e já estamos encafuados, sabe-se lá como e por que magnetismo insular, na toca deste pai de duas filhas que são a fotocópia da mãe. E, afinal, como se chama este homem que não tem um pulmão, nem um rim, e que esteve de junho a outubro, para morrer, no ano em que fez meio século, naquela que foi a sua primeira viagem ao continente? Já lá vamos que ele mantém suspense no parlatório. – ”A receita que os médicos lá no continente [Lisboa] me passaram é que não tinha solução. Era para ter ido embora. Estive meses sem comer e agora é isto.” Este agora são nove anos depois e isto duas horas diárias de caminhadas a pé, desde então, na companhia da pequena égua, que isto de não ter alguns órgãos é uma revolução na anatomia. Talvez tenha sido a condição insular, para o homem que vive duas vezes: uma hora a menos nos Açores é a Portugalidade a viver em mundos paralelos, um hiato de uma hora que fica suspensa. Uma vida extra, como nos jogos. E lá se lembra, enfim, da pergunta anterior, lá em cima: – Eu não me chamo, os outros é que me chamam a mim.” Diga: como é que os outros lhe chamam? – ”Isso varia. Se mandar uma carta para António Moura Moreira, ela é bem capaz de não chegar até mim. Agora, se puser António da Margarida, que era minha mãe, há-de chegar-me às mãos.“ E são estas mãos calejadas, de mar, de terra, de vinho, de vento, de esperança. ”Há também quem me chame cachaneta, ou então António Trovão. O Trovão.” Um homem que é uma tempestade? – ”É coisa muito antiga. Andei um dia na pancadaria, com o Malaquias, que tem casa lá no continente, e levei uma pancada que parecia um trovão. E como não há Trovão sem Faísca, dei -lhe o troco. E, pronto, lá ficou ele conhecido como Faísca.

*Crónica publicada originalmente a 11 de Março de 2015, no Porto24, com a chancela Bairro dos Livros.

terça-feira, março 17, 2015

"Da ideia à estória: reportagens que funcionam" é já na próxima segunda-feira, dia 23, na sede BagaBaga Studios, Lisboa,na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Workshop de um dia. Já se inscreveram? Partilhem, por favor, esta vossa aia, agradece.


segunda-feira, março 16, 2015

quinta-feira, março 05, 2015

Linha de Fronteira

Contrabando, tiros, tempestade, crime organizado, polícia militar, uma anfitriã raptada por presos foragidos e apagão em casa de um escritor-desconhecido. Se isto não era fruto da minha imaginação bem podia estar metida numa alhada.


Laura fez questão de me mostrar as perucas, os batons, a variedade de armações de óculos e os doces que comprara nessa tarde, em Ciudad del Este, no Paraguai, a meia hora de autocarro de casa dela, em Foz de Iguaçu, no Brasil. Também fez questão de me dizer que no mês anterior tinha sido mantida refém, na própria casa, quando dois foragidos de um estabelecimento prisional do estado do Mato Grosso, membros de um cartel, tomaram conta da residência. Ela alimentou-os e nem os vizinhos desconfiaram quando esta mulher de cabelo louro-garrido, voz grave e rouca, ar um pouco psicótico e vontade desenfreada de falar, “saía para ir às compras, dia sim, dia não” e deixou de receber visitas.
Caros leitores, foi nesta casa-hospedaria, onde, em 2010, fiquei durante três noites. Soube de tudo isto ainda nem sequer tinha tirado a mochila para me instalar. Se a hesitação me acometeu, outra hipótese não tive às dez e meia da noite deste lado da cidade-fantasma.
Para intensificar o cenário bizarro, eu não pregaria olho a noite inteira, atordoada com os tiros que a Polícia Militar brasileira disparara, para dispersar os contrabandistas do rio Paraná, que tentando enganar a vigilância na Ponte da Amizade, entre o Brasil e o Paraguai, esquivam às margens fluviais o mais que podem em produtos eletrónicos, armas, tabaco e bebidas.
A mim bastava-me o carimbo de saída do Brasil e de entrada no Paraguai ou na Argentina, para poder, posteriormente, permanecer por mais três meses em terras brasileiras.
Da primeira vez que saí para a linha de fronteira, o autocarro que saiu do Brasil nem sequer parou na fronteira brasileira. Afinal, a minha dor de cabeça começaria aqui, quando à noite tentasse voltar, parada para interrogatório. Nesta primeira viagem, ia encontrar um conceituado jornalista paraguaio. No final da conversa, A. passou por casa para me oferecer o livro dele “El ultimo vuelo del Pajaro Campana”. Mal chegamos, o céu desatou numa fúria, impondo pesadas gotas tempestivas, levantando a terra, criando de imediato um caudal que corria pelas ruas, trazendo lama e pedras e arrastando carros. Escureceu como se o mundo desistisse de tudo, não havia luz elétrica. Restava-nos ficar à mesa, a conversar, até que a parca vela ardesse até ao fim e a tempestade cessasse. Neste momento, pairaria a dúvida: estaria eu mergulhada na realidade ou na ficção? Já adivinhava que iria perder o meu último autocarro, para atravessar a fronteira. Tinha um passaporte por carimbar, um gravador, uma máquina fotográfica, e um rasto de suspeita num dia de tempestade. Contrabando, tiros, tempestade, crime organizado, polícia militar, uma anfitriã raptada por presos foragidos e o apagão em casa de um escritor-desconhecido. Se isto não era fruto da minha imaginação bem podia estar metida numa alhada. Horas depois, a tempestade deu tréguas e A. levou-me à fronteira, já noite cerrada. Depois do interrogatório, lá me deixaram passar a fronteira, a pé. Não me recordo como cheguei à hospedaria de Laura, quase meia-noite.
“– Oh portuguesa louca, estava preocupada com você. Até pensei que você teria sido raptada pelos meus amigos do cartel, li no jornal que, afinal, eles ainda andam por aqui. E, me conta, afinal o que você comprou lá na cidade?”.

*Crónica publicada originalmente no Porto24 a 18 Fev 2015, 17:11

quinta-feira, janeiro 29, 2015

A cidade e seus personagens I – Ilha da Bela Vista*

Será que há no mundo cidade com mais ilhas do que o Porto? Pedaços de terra intersticiais da anatomia citadina em terra, ligações insulares que provam que, afinal, o homem pode ser uma ilha? 

Por Vanessa Rodrigues



Não se sabe ao certo quantas centenas se escondem, isoladas, por trás de outras casas. São portões mistério de humanidade, aglomerado de habitações simples que brotaram da urgência em alojar a mão de obra no século XIX. Os herdeiros, que continuam a história, são parte do ADN da Invicta, um repositório de memória, de herança daquilo que somos. É o caso de Rosa, Ana, Luís e dos casais Maria Eugénia e Aloísio; Manuel e Júlia, moradores da ilha da Bela Vista, na rua Dom João IV.
Rosa, 69 anos, viúva e rebelde, voz grave, “foi feita” no quarto onde agora dorme. O pai foi afinador de teares numa fábrica portuense. Lembra-se do dia em que comprou um biquíni e como convenceu o marido a usá-lo. É “feliz, muito feliz”, na ilha, e tem saudades do barulho da “canalha”.
Já Ana Oliveira, a fadista de cabelo alvo e mãos de afagar gatos, 85 anos, saudosa do tempo em que cantava, nasceu na casa 10. Aos nove anos, já “andava a esfregar escadas e a acartar o balde da água”.“Cada caneco era um tostão, mas à vezes caía o caneco e ficava sem o caneco e sem o tostão”.
Escreveu muitas letras de música e poesia, só para ela. Começou a cantar na rádio Festival, antes de ser a rádio Festival, e foi a voz do Café Sanzala.
– “Todos os domingos de manhã, a comunidade juntava-se para me ouvir na rádio e cantarolava: “Vem está marcado/é o café que nos convém/não há outro no mercado/que ao tomar/saiba tão bem/mas que cheirinho/que perfume que exala/ café sempre fresquinho/que se vende na Sanzala/na sua mesa/tenha sempre um bom café/porque o acha com certeza/famoso como o Pelé.”
A vizinha insular de Ana, Maria Eugénia Moreira, tem sete décadas de vida, cabelo curto e grisalho, olhos de menina. Começou a trabalhar aos dez anos. Não podia sair de casa para brincar. Na “mocidade” foi a bailes com gira-discos e conheceu o marido, Aloísio. Nunca dançaram juntos. Aloísio foi depois para o ultramar e Maria Eugénia foi a sua “madrinha de guerra”. Ele rendeu-se e pediu-lhe namoro por carta. Ela até o achava “jeitoso”, “encanadinho”, mas “teso”. Zangaram-se, porém uma amiga juntou-os : “Vou-vos apresentar ao amparo da vossa velhice”.
Estão juntos há quatro décadas. Ele foi atleta, tipógrafo e, ao contrário da mulher, brincou até fazer asneiras: – “Arranjámos uma tábua dos andaimes, passávamos cascas de banana, laranja e pêra na madeira, para lubrificar e, do início da rua escura até à Ribeira, deslizávamos a alta velocidade. Eu parti a cabeça umas 15 vezes”.
Para Manuel e Júlia, a ilha é um “paraíso”. Ele trabalhou com artes gráficas, esteve fora do país, agora está reformado. Ela trabalhou num infantário. O Luís, 43 anos, o mais novo desta prosa, também se recorda do tempo dos tostões, das festas, da algazarra das crianças e do aconchego de ter uma casa, apesar de estar numa “ilha quase deserta”. Uma vez juntou o Cavaco Silva e o Mário Soares.
– “Fui segurança da Fundação de Serralves e, numa cerimónia pública, o quadro elétrico falhou. Eles estavam lá. Fui eu quem puxou a alavanca do quadro de eletricidade que estourou, numa grande confusão, por isso os seguranças tiveram de pôr os dois políticos no mesmo carro”.

P.S.: Testemunhos recolhidos por mim, pelo Daniel Brandão, Maria Camps, Wouter De Broeck, Ana Clara Roberti, Ricardo Coelho, Rita Costa, André Rocha, Ana Patrícia dos Santos, Daniel Rodrigues, Joana Costa, Maria João Pereira, Rute Febra, Priscilla Davanzo, Tiago Dias dos Santos, com apoio do arquiteto Nicolau Brandão e das assistentes sociais Inês Lima e Ana Vieira, no âmbito do Citizen Lab: Audio+Visual Storytelling, Future Places 2014. O lab deu origem ao projeto documental Citadocs (sobre, para, por cidadãos).

*Crónica publicada no Porto24 a 28 de Janeiro de 2015

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Pescador, cor de cacau, artesão da roça

A escultura de madeira suave e perfeita em forma de peixe na estante dos livros de viagens relembra uma lição de vida: que há gente a gostar de gente, abnegadamente, só porque sim, com a vida real em perfeita harmonia.

Por Vanessa Rodrigues


7 de Maio de 2011

Do bananal vem o rumor do mar, misturado com o riso da manhã e os olhos dele, grandes, bem desenhados, ternos. Negritude é a pele grossa, sábia genética, que adensa o calor e suaviza a humidade tropical quando nela assenta. Tem uns dentes alvos, e um olhar manso. Alexandre dos Santos, 22 anos, morador na roça Agostinho Neto, na ilha de São Tomé.
Estou de passagem. Sou a branca turista a querer saber das gentes. É pescador em part-time, homem da roça, separado da mãe dos filhos, um arroubo juvenil. E ainda lhe sobra tempo, à noite, se restarem dobras, para dançar Funaná.

一 Vais comigo?, convida.

É filho de cabo-verdianos – ainda se lembra do crioulo, o dialeto de casa –, dos muitos que migraram para esta ilha africana tão vizinha da linha Equador, metáfora para um recomeço. Quer saber: onde moro, de onde sou, se tenho filhos, marido, logo assim, nos primeiros segundos. Não perde tempo. A sedução não é um jogo, é convicção.
Também já foi militar, motorista de uma política são-tomense. Tão novo, tanta vida a latejar. Despeço-me. Ele com a tristeza inconsolável da despedida. Eu, com um certo desconforto. Penso que deve ser charme da condição insular.
No dia seguinte, espera-me, de manhãzinha, à porta do hotel.

一 Desculpa ter vindo assim sem avisar. Queria ver-te uma última vez. Posso nunca mais te ver. Desculpa-me.
Homem garboso, ousado, todavia educado. Veio pedir autorização para, ao final do dia, “logo”, me entregar um presente. O desconforto mistura-se com gratidão: que numa cidade desconhecida me sinta em casa, que o meu ser-eu de passagem se resigne à simplicidade dos afetos.

一 Quero dar-te um presente da minha terra. Mereces. Para que não esqueças. Posso?
Mereço? E “logo” é agora. Estou já de saída e, de novo, ele aparece, transpirado, sincero. É a segunda vez no mesmo dia que ele vem à cidade por minha causa, mais de 30 minutos de estrada.

一 Vim da roça de propósito para te entregar. Desculpa ter-me atrasado, tive de pedir a mota emprestada. Não posso ficar muito tempo. Pedi ao meu puto para ir buscar cacau à roça, para ti. E esta escultura fui eu que a fiz. E desculpa, estou envergonhado. Pedi à minha irmã uma saca para a embrulhar e ela pôs o cacau nesta de peixe.

一 Vieste de propósito entregar-me isto, de longe, sem me conheceres. Já te disse e agradeço: não se pede desculpa por genuínos gestos de generosidade e afeto. Eu não sei como te retribuir, sinceramente. Muito Obrigada.

Foram menos de cinco minutos. Despedimo-nos, um beijo no rosto, um olhar grato. Esfumou-se na noite já cerrada. Nunca mais nos vimos. Às vezes, ainda ouço o rumor do mar entre o bananal, quando olho para a escultura de madeira suave e perfeita em forma de peixe na estante dos livros de viagens, como quem relembra uma lição de vida: que há gente a gostar de gente, abnegadamente, só porque sim, com a vida real em perfeita harmonia.

*Crónica publicada no Porto24 a 6 de Janeiro de 2015

sábado, dezembro 27, 2014

Abafado e um leve latejar da música

Sempre sonhei em ter um leitor de vinyl, depois dos 17 anos, porque aqueles que existiam em casa dos meus pais desapareceram, ficaram fora de moda, viraram lixo e conjeturava-se que nunca mais se usaria algo tão obsoleto. Que grande equívoco! Que grande falácia! 

A primeira desilusão, confesso, foi quando descobri que aquele móvel lindo, da Philips, que já não mais existia no espólio familiar tinha sido doado a uma comunidade religiosa, no Porto, talvez a um bairro social, o meu pai não se recorda ao certo. Aquele móvel fora do meu avô, fora comprado a duras penas com um salário contado de um operário, para poder dar ao lar, nos anos 70 do século XX, a última tecnologia da época. Tinha um leitor de vinyl, rádio e espaço para guardar dezenas de discos. Fez parte da minha infância (limpei muitos vinis, troquei muitas agulhas, coloquei muitos discos para tocar e dancei muito, feliz) e tinha feito muitos planos para ele. 

Um dia, quando tivesse uma casa a que pudesse chamar de minha, arranjaria um canto de destaque para ele. Iria concorrer com o espaço para os livros, é certo, mas não falharia metro quadrado para ele. Debalde. Perdera-lhe o rasto. 

Depois, um outro pequeno móvel vertical também da Philips, e que morou uns anos no meu quarto da casa nova dos meus pais, também entrara na fase da reforma. Não me recordo como ele desapareceu do quarto. Não me recordo como muitas coisas, aliás, "desapareceram" do meu quarto. (Talvez devesse contratar um detetive para achar as coisas perdidas). 

No entanto, em 2011, quando fui a Nova York, ao abrigo de uma bolsa de jornalismo, pude concretizar o meu "sonho" e adquirir, em Williamsburgh, um leitor de vinyl portátil, da marca Crown, pequeno e prático, cujo volume pode ser sintonizável em duas frequências de rádio. Começou, então, aos poucos a recuperação do passado que fora já, outrora, o futuro, a tecnologia de última ponta. 

Devo confessar, que talvez por ter ouvidos sensíveis, de ouvir frequências sonoras que poucos ouvem, me apraz, particularmente, os vinis onde o som é abafado e onde se ouve um estalido frequente quase como um latejar da música. Por isso, quando não tenho o tocador de bolachas por perto, para ouvir a Carmen Miranda, o Django Reinhardt, o Adoniran Barbosa, o Paulinho da Viola ou a Clara Nunes, sintonizo, online, a Rádio Batuta, com o espólio musical do Instituto Moreira Salles. É o templo dos sons abafados, o elixir do latejar da música.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

O Refúgio da Infância, expo de António Morais, Porto

É hoje. "O Refúgio da Infância". Exposição de António Morais, na Colorfoto, Rua Sá da Bandeira, 526, Porto, a partir das 17h30. Retratos pueris de crianças refugiadas Palestinianas. "De alguma forma, a infância é um certo sentido de refúgio, um lugar intemporal onde todos já estivemos e aonde todos voltamos, em algum momento, ao longo da vida, como forma de escape ou retorno àquilo que somos." Contamos convosco. https://www.facebook.com/events/737249846358469/?pnref=story


segunda-feira, dezembro 08, 2014

Caligrafia

O meu professor de Árabe tem um trauma de infância. Esqueçam os monstros, os bichos-papões, os polícias, os pais severos e a educação pelo cinto. Aprender a caligrafia arábica era o pesadelo de todas as crianças árabes. Começava com a pena a mergulhar no tinteiro e o treino diligente, primeiro, para que não se derramasse uma gota que fosse daquele líquido negro que viajava no bico do utensílio afiado que iria materializar a linguagem. Ofício para exímios, portanto. Depois, a verdadeira prova: escrever da direita para a esquerda sem borrar letra-a-letra, o que se acabava de escrever. E, nem sempre, o mata-borrão obedecia, pelo contrário, parecia fazer troça dos mais ingénuos. O melhor aluno era aquele que conseguia a proeza dos desenhos alfabéticos sem mácula no branco onde se escrevia. E tudo isto com toda a delicadeza que as letras árabes impõem. Desenhos simbólicos que parece que dançam no papel. Porém, uma coisa é a letra árabe isolada, outra é a ligação que essa letra tem com a letra seguinte para formar uma palavra, e que pode ter ou não movimentos (harakat) – mais ou menos o equivalente às vogais. Isso implica símbolos específicos em cada letra. Ufa! Eu explico: imaginem a palavra casa, que em árabe diz-se “bayt”, isto é بيت , mas se quisermos as letras isoladas teríamos B= ب Y=ي T= ت
É menos complicado do que aquilo que parece. Mais complexo era, sem dúvida, o exercício que deixou marcas na memória de Abdel, o professor. Um exercício para expor desastrados. Eu teria com certeza falhado a tarefa. Até porque, se bem me lembro, a minha perícia para escrever em cadernos de duas linhas estreitas, para treinar a caligrafia (lembram-se?), era já per si, um pesadelo a que tentava esquivar-me com técnicas avançadas: Ah! Esqueci-me! Debalde. Os complôs doméstico e escolar estavam instaurados, como conspiração de espionagem apertada. As técnicas de moralização também não eram as melhores e, entre ouvir que tinha uma caligrafia “pouco apresentável” a um “horrível” sincero de alguém, tentei, pois, ser mais diligente, surripiando a caneta de tinta permanente do meu pai. Já que tinha de escrever, que fosse com uma novidade. Achei mágico o mergulho daquela ponta afiada num frasco de tinta índigo. Fiz por isso, um admirável e competente borrão, que hoje, se o tivesse guardado, poderia expor, quiçá, numa galeria de arte. Ou até mesmo teria, eventualmente, inventado um novo e pioneiro teste de borrão psicanalítico, muito útil aos seguidores do senhor Hermman Rorschach, psiquiatra suíço dos séculos XIX e XX, que certamente analisaria nesta imagem, a hipótese projetiva da minha personalidade hiperativa, com propensão para a desobediência. Não recordo, por ora, qual o castigo que me foi aplicado pelo derrame da tinta permanente – talvez o de ter que escrever horas a fio em cadernos de duas linhas, pois desde essa época a minha caligrafia tornou-se irrepreensível. Não obstante, nas aulas de árabe escrevo a lápis e asseguro que, até ao momento, não houve quaisquer manchas desastrosas no caderno. Qualquer dia arrisco a tinta permanente.

* Crónica publicada a 26 de Novembro de 2014 no Porto24, rubrica do Bairro dos Livros, Culture Print, intercalada com os cronistas Jorge Palinhos, Rui Manuel Amaral e Rui Lage. 
 
Bio| Vanessa Ribeiro Rodrigues é jornalista, escritora, documentarista, viajante. Nasceu no Porto, morou no Brasil e na Jordânia. O que lhe importa é reinventar a cor da linguagem, caçar histórias. É autora do livro “O Barulho do Tempo” e tem vários contos e poemas publicados em revistas literárias. Escreve segundo o novo acordo ortográfico.