quinta-feira, janeiro 29, 2015

A cidade e seus personagens I – Ilha da Bela Vista*

Será que há no mundo cidade com mais ilhas do que o Porto? Pedaços de terra intersticiais da anatomia citadina em terra, ligações insulares que provam que, afinal, o homem pode ser uma ilha? 

Por Vanessa Rodrigues



Não se sabe ao certo quantas centenas se escondem, isoladas, por trás de outras casas. São portões mistério de humanidade, aglomerado de habitações simples que brotaram da urgência em alojar a mão de obra no século XIX. Os herdeiros, que continuam a história, são parte do ADN da Invicta, um repositório de memória, de herança daquilo que somos. É o caso de Rosa, Ana, Luís e dos casais Maria Eugénia e Aloísio; Manuel e Júlia, moradores da ilha da Bela Vista, na rua Dom João IV.
Rosa, 69 anos, viúva e rebelde, voz grave, “foi feita” no quarto onde agora dorme. O pai foi afinador de teares numa fábrica portuense. Lembra-se do dia em que comprou um biquíni e como convenceu o marido a usá-lo. É “feliz, muito feliz”, na ilha, e tem saudades do barulho da “canalha”.
Já Ana Oliveira, a fadista de cabelo alvo e mãos de afagar gatos, 85 anos, saudosa do tempo em que cantava, nasceu na casa 10. Aos nove anos, já “andava a esfregar escadas e a acartar o balde da água”.“Cada caneco era um tostão, mas à vezes caía o caneco e ficava sem o caneco e sem o tostão”.
Escreveu muitas letras de música e poesia, só para ela. Começou a cantar na rádio Festival, antes de ser a rádio Festival, e foi a voz do Café Sanzala.
– “Todos os domingos de manhã, a comunidade juntava-se para me ouvir na rádio e cantarolava: “Vem está marcado/é o café que nos convém/não há outro no mercado/que ao tomar/saiba tão bem/mas que cheirinho/que perfume que exala/ café sempre fresquinho/que se vende na Sanzala/na sua mesa/tenha sempre um bom café/porque o acha com certeza/famoso como o Pelé.”
A vizinha insular de Ana, Maria Eugénia Moreira, tem sete décadas de vida, cabelo curto e grisalho, olhos de menina. Começou a trabalhar aos dez anos. Não podia sair de casa para brincar. Na “mocidade” foi a bailes com gira-discos e conheceu o marido, Aloísio. Nunca dançaram juntos. Aloísio foi depois para o ultramar e Maria Eugénia foi a sua “madrinha de guerra”. Ele rendeu-se e pediu-lhe namoro por carta. Ela até o achava “jeitoso”, “encanadinho”, mas “teso”. Zangaram-se, porém uma amiga juntou-os : “Vou-vos apresentar ao amparo da vossa velhice”.
Estão juntos há quatro décadas. Ele foi atleta, tipógrafo e, ao contrário da mulher, brincou até fazer asneiras: – “Arranjámos uma tábua dos andaimes, passávamos cascas de banana, laranja e pêra na madeira, para lubrificar e, do início da rua escura até à Ribeira, deslizávamos a alta velocidade. Eu parti a cabeça umas 15 vezes”.
Para Manuel e Júlia, a ilha é um “paraíso”. Ele trabalhou com artes gráficas, esteve fora do país, agora está reformado. Ela trabalhou num infantário. O Luís, 43 anos, o mais novo desta prosa, também se recorda do tempo dos tostões, das festas, da algazarra das crianças e do aconchego de ter uma casa, apesar de estar numa “ilha quase deserta”. Uma vez juntou o Cavaco Silva e o Mário Soares.
– “Fui segurança da Fundação de Serralves e, numa cerimónia pública, o quadro elétrico falhou. Eles estavam lá. Fui eu quem puxou a alavanca do quadro de eletricidade que estourou, numa grande confusão, por isso os seguranças tiveram de pôr os dois políticos no mesmo carro”.

P.S.: Testemunhos recolhidos por mim, pelo Daniel Brandão, Maria Camps, Wouter De Broeck, Ana Clara Roberti, Ricardo Coelho, Rita Costa, André Rocha, Ana Patrícia dos Santos, Daniel Rodrigues, Joana Costa, Maria João Pereira, Rute Febra, Priscilla Davanzo, Tiago Dias dos Santos, com apoio do arquiteto Nicolau Brandão e das assistentes sociais Inês Lima e Ana Vieira, no âmbito do Citizen Lab: Audio+Visual Storytelling, Future Places 2014. O lab deu origem ao projeto documental Citadocs (sobre, para, por cidadãos).

*Crónica publicada no Porto24 a 28 de Janeiro de 2015

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Pescador, cor de cacau, artesão da roça

A escultura de madeira suave e perfeita em forma de peixe na estante dos livros de viagens relembra uma lição de vida: que há gente a gostar de gente, abnegadamente, só porque sim, com a vida real em perfeita harmonia.

Por Vanessa Rodrigues


7 de Maio de 2011

Do bananal vem o rumor do mar, misturado com o riso da manhã e os olhos dele, grandes, bem desenhados, ternos. Negritude é a pele grossa, sábia genética, que adensa o calor e suaviza a humidade tropical quando nela assenta. Tem uns dentes alvos, e um olhar manso. Alexandre dos Santos, 22 anos, morador na roça Agostinho Neto, na ilha de São Tomé.
Estou de passagem. Sou a branca turista a querer saber das gentes. É pescador em part-time, homem da roça, separado da mãe dos filhos, um arroubo juvenil. E ainda lhe sobra tempo, à noite, se restarem dobras, para dançar Funaná.

一 Vais comigo?, convida.

É filho de cabo-verdianos – ainda se lembra do crioulo, o dialeto de casa –, dos muitos que migraram para esta ilha africana tão vizinha da linha Equador, metáfora para um recomeço. Quer saber: onde moro, de onde sou, se tenho filhos, marido, logo assim, nos primeiros segundos. Não perde tempo. A sedução não é um jogo, é convicção.
Também já foi militar, motorista de uma política são-tomense. Tão novo, tanta vida a latejar. Despeço-me. Ele com a tristeza inconsolável da despedida. Eu, com um certo desconforto. Penso que deve ser charme da condição insular.
No dia seguinte, espera-me, de manhãzinha, à porta do hotel.

一 Desculpa ter vindo assim sem avisar. Queria ver-te uma última vez. Posso nunca mais te ver. Desculpa-me.
Homem garboso, ousado, todavia educado. Veio pedir autorização para, ao final do dia, “logo”, me entregar um presente. O desconforto mistura-se com gratidão: que numa cidade desconhecida me sinta em casa, que o meu ser-eu de passagem se resigne à simplicidade dos afetos.

一 Quero dar-te um presente da minha terra. Mereces. Para que não esqueças. Posso?
Mereço? E “logo” é agora. Estou já de saída e, de novo, ele aparece, transpirado, sincero. É a segunda vez no mesmo dia que ele vem à cidade por minha causa, mais de 30 minutos de estrada.

一 Vim da roça de propósito para te entregar. Desculpa ter-me atrasado, tive de pedir a mota emprestada. Não posso ficar muito tempo. Pedi ao meu puto para ir buscar cacau à roça, para ti. E esta escultura fui eu que a fiz. E desculpa, estou envergonhado. Pedi à minha irmã uma saca para a embrulhar e ela pôs o cacau nesta de peixe.

一 Vieste de propósito entregar-me isto, de longe, sem me conheceres. Já te disse e agradeço: não se pede desculpa por genuínos gestos de generosidade e afeto. Eu não sei como te retribuir, sinceramente. Muito Obrigada.

Foram menos de cinco minutos. Despedimo-nos, um beijo no rosto, um olhar grato. Esfumou-se na noite já cerrada. Nunca mais nos vimos. Às vezes, ainda ouço o rumor do mar entre o bananal, quando olho para a escultura de madeira suave e perfeita em forma de peixe na estante dos livros de viagens, como quem relembra uma lição de vida: que há gente a gostar de gente, abnegadamente, só porque sim, com a vida real em perfeita harmonia.

*Crónica publicada no Porto24 a 6 de Janeiro de 2015

sábado, dezembro 27, 2014

Abafado e um leve latejar da música

Sempre sonhei em ter um leitor de vinyl, depois dos 17 anos, porque aqueles que existiam em casa dos meus pais desapareceram, ficaram fora de moda, viraram lixo e conjeturava-se que nunca mais se usaria algo tão obsoleto. Que grande equívoco! Que grande falácia! 

A primeira desilusão, confesso, foi quando descobri que aquele móvel lindo, da Philips, que já não mais existia no espólio familiar tinha sido doado a uma comunidade religiosa, no Porto, talvez a um bairro social, o meu pai não se recorda ao certo. Aquele móvel fora do meu avô, fora comprado a duras penas com um salário contado de um operário, para poder dar ao lar, nos anos 70 do século XX, a última tecnologia da época. Tinha um leitor de vinyl, rádio e espaço para guardar dezenas de discos. Fez parte da minha infância (limpei muitos vinis, troquei muitas agulhas, coloquei muitos discos para tocar e dancei muito, feliz) e tinha feito muitos planos para ele. 

Um dia, quando tivesse uma casa a que pudesse chamar de minha, arranjaria um canto de destaque para ele. Iria concorrer com o espaço para os livros, é certo, mas não falharia metro quadrado para ele. Debalde. Perdera-lhe o rasto. 

Depois, um outro pequeno móvel vertical também da Philips, e que morou uns anos no meu quarto da casa nova dos meus pais, também entrara na fase da reforma. Não me recordo como ele desapareceu do quarto. Não me recordo como muitas coisas, aliás, "desapareceram" do meu quarto. (Talvez devesse contratar um detetive para achar as coisas perdidas). 

No entanto, em 2011, quando fui a Nova York, ao abrigo de uma bolsa de jornalismo, pude concretizar o meu "sonho" e adquirir, em Williamsburgh, um leitor de vinyl portátil, da marca Crown, pequeno e prático, cujo volume pode ser sintonizável em duas frequências de rádio. Começou, então, aos poucos a recuperação do passado que fora já, outrora, o futuro, a tecnologia de última ponta. 

Devo confessar, que talvez por ter ouvidos sensíveis, de ouvir frequências sonoras que poucos ouvem, me apraz, particularmente, os vinis onde o som é abafado e onde se ouve um estalido frequente quase como um latejar da música. Por isso, quando não tenho o tocador de bolachas por perto, para ouvir a Carmen Miranda, o Django Reinhardt, o Adoniran Barbosa, o Paulinho da Viola ou a Clara Nunes, sintonizo, online, a Rádio Batuta, com o espólio musical do Instituto Moreira Salles. É o templo dos sons abafados, o elixir do latejar da música.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

O Refúgio da Infância, expo de António Morais, Porto

É hoje. "O Refúgio da Infância". Exposição de António Morais, na Colorfoto, Rua Sá da Bandeira, 526, Porto, a partir das 17h30. Retratos pueris de crianças refugiadas Palestinianas. "De alguma forma, a infância é um certo sentido de refúgio, um lugar intemporal onde todos já estivemos e aonde todos voltamos, em algum momento, ao longo da vida, como forma de escape ou retorno àquilo que somos." Contamos convosco. https://www.facebook.com/events/737249846358469/?pnref=story


segunda-feira, dezembro 08, 2014

Caligrafia

O meu professor de Árabe tem um trauma de infância. Esqueçam os monstros, os bichos-papões, os polícias, os pais severos e a educação pelo cinto. Aprender a caligrafia arábica era o pesadelo de todas as crianças árabes. Começava com a pena a mergulhar no tinteiro e o treino diligente, primeiro, para que não se derramasse uma gota que fosse daquele líquido negro que viajava no bico do utensílio afiado que iria materializar a linguagem. Ofício para exímios, portanto. Depois, a verdadeira prova: escrever da direita para a esquerda sem borrar letra-a-letra, o que se acabava de escrever. E, nem sempre, o mata-borrão obedecia, pelo contrário, parecia fazer troça dos mais ingénuos. O melhor aluno era aquele que conseguia a proeza dos desenhos alfabéticos sem mácula no branco onde se escrevia. E tudo isto com toda a delicadeza que as letras árabes impõem. Desenhos simbólicos que parece que dançam no papel. Porém, uma coisa é a letra árabe isolada, outra é a ligação que essa letra tem com a letra seguinte para formar uma palavra, e que pode ter ou não movimentos (harakat) – mais ou menos o equivalente às vogais. Isso implica símbolos específicos em cada letra. Ufa! Eu explico: imaginem a palavra casa, que em árabe diz-se “bayt”, isto é بيت , mas se quisermos as letras isoladas teríamos B= ب Y=ي T= ت
É menos complicado do que aquilo que parece. Mais complexo era, sem dúvida, o exercício que deixou marcas na memória de Abdel, o professor. Um exercício para expor desastrados. Eu teria com certeza falhado a tarefa. Até porque, se bem me lembro, a minha perícia para escrever em cadernos de duas linhas estreitas, para treinar a caligrafia (lembram-se?), era já per si, um pesadelo a que tentava esquivar-me com técnicas avançadas: Ah! Esqueci-me! Debalde. Os complôs doméstico e escolar estavam instaurados, como conspiração de espionagem apertada. As técnicas de moralização também não eram as melhores e, entre ouvir que tinha uma caligrafia “pouco apresentável” a um “horrível” sincero de alguém, tentei, pois, ser mais diligente, surripiando a caneta de tinta permanente do meu pai. Já que tinha de escrever, que fosse com uma novidade. Achei mágico o mergulho daquela ponta afiada num frasco de tinta índigo. Fiz por isso, um admirável e competente borrão, que hoje, se o tivesse guardado, poderia expor, quiçá, numa galeria de arte. Ou até mesmo teria, eventualmente, inventado um novo e pioneiro teste de borrão psicanalítico, muito útil aos seguidores do senhor Hermman Rorschach, psiquiatra suíço dos séculos XIX e XX, que certamente analisaria nesta imagem, a hipótese projetiva da minha personalidade hiperativa, com propensão para a desobediência. Não recordo, por ora, qual o castigo que me foi aplicado pelo derrame da tinta permanente – talvez o de ter que escrever horas a fio em cadernos de duas linhas, pois desde essa época a minha caligrafia tornou-se irrepreensível. Não obstante, nas aulas de árabe escrevo a lápis e asseguro que, até ao momento, não houve quaisquer manchas desastrosas no caderno. Qualquer dia arrisco a tinta permanente.

* Crónica publicada a 26 de Novembro de 2014 no Porto24, rubrica do Bairro dos Livros, Culture Print, intercalada com os cronistas Jorge Palinhos, Rui Manuel Amaral e Rui Lage. 
 
Bio| Vanessa Ribeiro Rodrigues é jornalista, escritora, documentarista, viajante. Nasceu no Porto, morou no Brasil e na Jordânia. O que lhe importa é reinventar a cor da linguagem, caçar histórias. É autora do livro “O Barulho do Tempo” e tem vários contos e poemas publicados em revistas literárias. Escreve segundo o novo acordo ortográfico.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Das leituras

O meu amigo Nuno Ferraz (já lá vão quase 20 anos, companheiro), leitor diligente, seletivo e viajante atento, presenteou-me, no passado aniversário (eu sei, quase um ano depois) com este livro magnífico da Carmen Miranda, pelo cunho do jornalista brasileiro Ruy Castro. Antes desta biografia sair, no Brasil, recordo-me bem, da cantora Jiji Trujilo (nome artístico), que no reportório musical tem Carmen Miranda, me falar desta literatura e que andava, também ela, a fazer um estudo musical das influências desta cantora luso-brasileira, sua musa inspiradora. Recordo-me da nossa conversa, no meio do chorinho Paulistano, naquele que para mim é dos melhores lugares de samba de raiz, em São Paulo, o Ó do Borogodó. Mal eu sabia que, anos depois, o Nuno, lembrando-se da minha condição luso-brasileira me daria um livro há muito desejado. Como diz o Paulo M., outro amigo querido, um dos meus principais impulsionadores para que não desista nunca de criar, "isto está tudo ligado". De uma escrita direta, limpa, generosa e, concomitantemente, inteligente, Ruy Castro perscruta as várias camadas da vida de uma das maiores musas do Brasil, e, ainda, tão distante da memória portuguesa. Além isso, são as imagens a preto e branco da vida privada desta artista de alma além do seu tempo, que nos envolvem numa viagem não só ao talento, modernidade e excêntrica condição de ser livre, mas também à generosidade e humilde paixão pela música. 
 

quinta-feira, novembro 27, 2014

Outonar


Por baixo daquele tapete que parecem trapos sortidos esfiapados pela natureza outonada (em âmbar, rosa, magenta, amarelo, laranja, vermelho, castanho-terra, castanho-tronco, castanho-carvalho, rosa-velho) há sedimentos do que resta das rochas, das pedras, gravilha desfeita, que ensaiam a melodia outonal. Solfejo: graves, agudos, sussurros, sensorialidades quase invisíveis a audições viciadas em ruídos urbanos. Escuta-se o esvoaçar diáfano de folhas murchas, outras em queda livre, sensíveis à aragem, descarnando as árvores para serem bafejadas de ventos que puxam a invernia. Ontem, pude esmagar com os pés calçados, este tapete unido, abundante em andrajos que a natureza começa a desfazer-se. Pude ouvir o estalejar dos pequenos órgãos vegetais que se despedem do seu estado maduro para a iniciação a pó, a sedimento, a terra renovada, para se quedarem em infinitas partículas. Ontem, enquanto caminhava, quase deslizei numa folha mais húmida, resistente à decomposição. Hoje, contudo, o tapete já se foi, e a poeira resta por baixo, cor-de-cal-pincelado-de-cobalto. Os trapos são sempre temporários. Mesmo estes, tão secos e reais, tão vegetais e fibrosos. É preciso recolher as folhas antes que partam até ao próximo Outono. 







quarta-feira, outubro 15, 2014

O Labirinto

*Crónica publica no jornal online Porto24 a 15 de Outubro

 Tenho uma predileção por labirintos. Vejo-os nas mais diversas manifestações de vida: nos caminhos anatómicos no cérebro, nas relações humanas, no amor, nos cursos de água da Amazónia, no pensamento e, claro, na literatura. Folhear um livro, mais do que o explícito ou implícito da invisibilidade, ou perscrutar a psicologia de um escritor, é entrar-no-labirinto-além -de-entre-as-linhas.
Se sublinharmos, infinitamente, a lápis, esses corredores de letras, intercalando tal qual poetas concretistas brasileiros o rigor da palavra-após-palavra, criando efeitos gráficos, poderemos deixar-nos levar, primeiro, por uma espiral. Depois, a tentação será a de subverter o deslize, em várias direções, ao som do tssssssss da plumbagina. O grafite parece-me a forma mais sensorial de vivermos o intrincado das e nas páginas. Esse é o caminho mais evidente para chegarmos ao auto-labirinto, resgatando dos livros as palavras e os sentidos que melhor servem o enredo em que nos vamos enovelando. Paradoxalmente, quanto mais parece que nos perdemos, mais nos vamos encontrando.
Na época barroca, o labirinto era uma forma aberta de interpretação literária concedendo vários caminhos possíveis para a sua leitura. O que interessa a esta prosa, todavia, é de como, por vezes, os labirintos se bifurcam. Tal e qual como me aconteceu.
A palavra labirinto, escreveu Jorge Luis Borges no “Livro dos seres imaginários”, vem do grego lábrys (λάβρυς), ou machado de dupla lâmina, símbolo encontrado no palácio do rei Minos, na ilha de Creta, local identificado com o mítico labirinto projetado por Dédalo e habitado pelo Minotauro.
Em 2011, a propósito dos 25 anos da morte de Jorge Luis Borges, Veneza resolveu homenagear o escritor argentino, que era apaixonado pela cidade, prestigiando-o com um jardim-labirinto, que se tornou um dos maiores do mundo. Para isso, inspirou-se no conto “El jardín de los senderos que se bifurcan”. São dois quilómetros, com 3.200 plantas, informações em Braille e, visto do alto, reproduz o nome de Borges de forma intrincada. Foi projetado nos anos 80, do século XX, pelo inglês Randoll Coate e concretizado pela Fundação Cini. Quando o avistei em Abril passado, do alto do Campanário da Igreja de São Jorge, em Veneza, mesmo aos pés de um primoroso pôr-do-sol, tive a certeza que a literatura ganhara vida e fazia de mim personagem real e “bifurcada” daquele labirinto. E que as páginas de um livro que desconheço, com a minha história (procura-se paradeiro), estaria a ser sublinhado a lápis. Seria eu a perder-me e a encontrar-me no labirinto, como um general de Gabriel Garcia Marquez. Ao mesmo tempo que percorria esse borgeano labirinto de Veneza, pude imaginar que ele iria dar ao labirinto de sebes do Parque de São Roque da Lameira, no Porto, no caminho para casa. E, por isso, não precisaria de avião algum que me levasse de volta. Percebi, nesse momento, por que tenho afeto por labirintos. Eles são verdadeiros portais do tempo, territórios neutros. E nós, em algum momento, seres imaginários.
Vanessa Ribeiro RodriguesVanessa Ribeiro Rodrigues é jornalista, escritora, documentarista, viajante. Nasceu no Porto, morou no Brasil e na Jordânia. O que lhe importa é reinventar a cor da linguagem, caçar histórias. É autora do livro “O Barulho do Tempo” e tem vários contos e poemas publicados em revistas literárias. Escreve segundo o novo acordo ortográfico.

quinta-feira, setembro 25, 2014

Desapego, deve ser isto

Há momentos num percurso de vida em que temos largar as coisas (atenção: ironia). As fraldas, a chupeta, as bonecas, os carrinhos, os berlindes, as papas, as chicletes gorila, as cassetes, enfim, extensões de nós que deixam de fazer sentido, que se perdem no éter do nada, no vazio. Extensões de que perdemos o controlo. Há, realmente, extensões de nós, às quais podemos nunca mais ter acesso, embora nos pareçam imortais e eternas, naquele exato momento em que vivemos.

Tudo isto poderia não me ter acometido se não tivesse percebido que a maioria dos meus alunos deste ano tem uma conta hotmail. E isso funcionou como uma espécie de mnemónica. Aos 18 anos criei a minha primeira conta de e-mail no serviço hotmail. Achei que mais ninguém usasse hotmail. Quis voltar a ela, rever o lixo que por lá poderia andar e nada. Não me ocorreu que o ano passado a Microsoft se apoderou de todas as contas inativas e pluff. Zerou. A minha primeira conta nunca existiu, portanto, devido a um processo de extermínio. E essa conta foi tão física quanto os quilómetros de palavras e e-mails que por lá deixei. Para onde foram as palavras? Para onde foram as fotos, os vídeos, enfim, para onde foi o virtual, a lógica formulada na equação de zeros e uns que existiu? O universo cibernético é esse nada virtual que pode entrar em crise existencial. O nada pode implodir. Percebi que como já não ia a tempo mais valia esquecer o assunto.

Minutos depois, contudo, ocorreu-me que também tive um endereço eletrónico do Portugalmail. De imediato, fui confirmar, recordei-me da senha e entrei para um universo de milhares de e-mail por ler. Resolvi pôr um fim ao caos e vaticinar o fim da conta. Recebi um e-mail para confirmar a ação de carrasco implacável. Hesitei, mas segundos depois, dei luz verde. Voltei ao processo de pensamento em cadeia e recordei-me do Hi5. Não consegui entrar: o e-mail de acesso ou era o hotmail, ou o portugalmail. Confesso, não doeu. Foi uma coisa natural, como as fraldas, nem damos por nada. Desapego, deve ser isto.

quarta-feira, setembro 24, 2014

Prémio Documentário "À Flor da Terra", no Festival Internacional Filmes de Turismo Art&Tur


Agora já é oficial. "Tenho a honra de informar que o júri do VII Festival Internacional de Cinema de Turismo - ART&TUR, presidido por Elizete Kreutz, decidiu premiar o seu filme "À Flor da Terra", confirma um e-mail pela manhã. O documentário sobre o resgate de memória da Quinta de Covela, no Douro, que realizei, produzi e cujo guião escrevi, em tantas horas de insónia e mergulho em apneia, (ufa, done!), está premiado no ART & TUR - International Tourism Film Festival. Este filme documental (50 minutos) tem o cunho estético de António Morais (Direção de Fotografia), a edição dedicada de Osvaldo Pinto, (tantas horas de trabalho, companheiro), a captação de áudio de Ricardo C Gd e Gonçalo Sousa, também responsável pela pós-produção áudio; Carlos Barros de Carvalho e Osvaldo Pinto, ainda, como camara men. Muito Obrigada a todos. Sempre acreditamos no potencial deste filme, pela maravilhosa história da Quinta, seus personagens reais e pela equipa envolvida. O Festival decorre de 23 a 25 de Outubro, no Porto; o documentário "À Flor da Terra" terá a sua prémiere por lá e a premiação será no último dia. Em breve o programa ficará disponível no website e redes sociais. Saravá!